‘Não se pode desunir o país’, diz Elba Ramalho sobre polêmica
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‘Não se pode desunir o país’, diz Elba Ramalho sobre polêmica

A partir do embate entre forró e sertanejo, CORREIO amplia reflexão sobre o São João com entrevistas a forrozeiros, poetas, pesquisadores e cantores

Laura Fernandes * (laura.fernandes@redebahia.com.br)

A cantora paraibana Elba Ramalho, 65 anos, reacendeu o debate em torno das tradições juninas ao defender o território do forró no palco principal da festa que disputa, com o Carnaval, a preferência no coração dos nordestinos. Ao questionar a presença excessiva de artistas sertanejos na programação do São João, Elba provocou a reação de cantores que colocaram lenha na fogueira do debate.

Entre eles, está a sertaneja goiana Marília Mendonça, 21, que disparou em um show em São Paulo: “Vai ter sertanejo, sim, viu? Porque quem quer é o público”, cutucou a moça,  acrescentando: “Sei que vocês gostam mesmo é de música boa. Não importa o estilo”. Já o forrozeiro cearense Alcymar Monteiro, 64, retrucou dizendo que Marília faz um “breganejo horroroso, para cachaceiros”. Os discursos inflamados serviram de combustível para o CORREIO ampliar o debate sobre cultura, tradição e memória, a partir da conversa com forrozeiros, poetas, pesquisadores e cantores.

A cantora Elba Ramalho diz que seu objetivo não foi ofender (Foto: Reinaldo Marques Globo/Divulgação)

A começar pela própria Elba, que esclarece ao telefone que seu objetivo não foi ofender, mas refletir sobre a cultura. “Meu comportamento não estimula a intolerância porque não discrimino. Pedi apenas que houvesse respeito ao espaço do São João, que é patrimônio cultural do Nordeste, um valor que precisa ser preservado para novas gerações. Não quero polemizar, meu posicionamento ocorreu de modo dócil e elegante”, garante. A cantora conta, ainda, que ligou para Alcymar e sugeriu que ele pedisse desculpas por sua fala, apesar de entender que o amigo está “com a alma magoada”.

“Não se pode desunir o país, mas é preciso pensar em grades mais balanceadas, onde o Nordeste e os artistas nordestinos não fiquem acuados. Talvez quando eu sair desse mundo, as pessoas percebam que não deveríamos viver o conflito, mas valorizar o amor e o afeto. Quando falei sobre a questão, minha intenção foi ajudar a promover uma reflexão”, justificou Elba.

Uma das principais porta-vozes do eterno Luiz Gonzaga (1912-1989), Elba ressalta que não tem nada contra os sertanejos e é fã de Zezé Di Camargo & Luciano e Chitãozinho & Xororó. “Quero dar as boas -vindas a Marília Mendonça, que será muito bem recebida na Paraíba”, reforça. “Os sertanejos são ótimos, competentes e unidos, trabalham de ponta a ponta no Nordeste e deixam casas lotadas. O problema é quando nossos artistas locais, que trabalham duro, ficam de fora da festa por conta dos empresários”, destaca.

Prefeito da cidade de Irecê, onde Marília será uma das principais atrações, Elmo Vaz afirma que a cantora é talentosa, está em um ótimo momento da carreira e todo mundo quer vê-la. “Acredito que o São João acolhe bem tanto o forró pé de serra quanto o sertanejo. Procuramos aliar o moderno ao tradicional, sem perder de vista nossas raízes. Tanto cabe Marília Mendonça e seu sertanejo feminino moderno, quanto Zé Bigode, sanfoneiro tradicional de 70 anos da nossa região”, ameniza.

Marília Mendonça e Alcymar Monteiro colocaram lenha da fogueira do debate (Foto: Reprodução)

Festa de camisa
O debate em torno do São João gerou movimentos como o Devolva Meu São João e Somos o Forró, do qual o cantor e compositor baiano Zelito Miranda faz parte. “A cultura nordestina e o forró estão crescendo muito na Europa, com festivais na França, Suíça e Itália. A ideia do Somos o Forró é fazer com que a cultura local tenha a mesma visibilidade e prestígio que tem fora”, explica Zelito, que se diz contra o “canibalismo artístico e empresarial”.

A mercantilização da festa também é criticada pelo poeta e compositor pernambucano Maviael Melo, 47. Radicado na Bahia e curador do projeto Cordelizando, Maviael diz que “a invasão é capitalista”. “O prefeito recebe patrocínio de uma cervejaria, ela contrata os artistas que quer e quem faz nossa cultura de coração é tratado como mero coadjuvante”, critica. “É papel do estado zelar pela cultura”, enfatiza.

Maviael acha a polêmica válida e diz que o que está em jogo é a preservação da memória. “Já se perdeu muito: os concursos de quadrilha, as ruas enfeitadas e outros detalhes que fazem a festa ser íntima, familiar, de sentar perto da fogueira, passar na casa do vizinho e beber um licor. Quando você tira essa cultura do foco e transforma o São João em uma festa de camisa, você vai perdendo as tradições”, acredita.

Forrozeiro com mais de 30 anos de carreira, o paraibano Flávio José acredita que as prefeituras poderiam dar prioridade às “pratas da casa, ao forró de raiz”. “Tenho a sensação de que a festa não é mais nossa. É como se alguém chegasse em sua casa e dissesse para sair”, compara.

Sanfoneira e socióloga, a baiana Lívia Mattos, 31, destaca que o forró traz um universo de sensações e símbolos que remetem às tradições juninas e a “pasteurização massiva é perigosa”. “Quando se perde esse arcabouço simbólico e se descaracteriza nesse nível um festejo popular, estamos falando de uma perda imensurável. O São João não pode se igualar a qualquer outra festa, porque é, historicamente, outra coisa. Não é mais um festival de música, festa de Révellion ou outro evento desprovido de símbolos… É o São João!”, finaliza.

Sanfoneira e socióloga, Lívia Mattos diz que ‘pasteurização massiva é perigosa’
(Foto: João Meirelles/Divulgação)

São João é cultura viva, diz historiador
A partir da fala de Elba Ramalho sobre a perda de espaço do forró, muitos defendem a ampliação do debate junino para além da música. “Afinal de contas, o que é uma festa de São João? Quem são os protagonistas musicais, qual é a dinâmica da alimentação?”, questiona o historiador Beto Severino, 50 anos, professor doutor do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (Ihac-Ufba).

Atuante em pesquisas com ênfase na História da cultura, Beto acredita que o que talvez esteja acontecendo com o São João, hoje, é um jogo duplo que envolve a “mercantilização que atua de forma massiva – com a intervenção de empresas de alimentos e de bebidas – e o jogo político da festa que dá visibilidade para produtores, artistas e prefeitos”.

“Não que nós vamos tomar partido de quem está certo e de quem está errado, mas é claro que uma reclamação vinda de Elba serve como um alerta”, pontua Beto, que aponta para uma descaracterização da festa, apesar de enfatizar que não tem uma visão purista das festas populares e que a transformação “faz parte da própria evolução do que seria uma manifestação cultural viva”.

“A pergunta é sobre o que é uma festa de São João”, reforça o historiador, ao comparar o modelo de som amplificado e os pequenos palcos com sanfoneiros. “Que tipo de festa a gente faz? Por que não pensar em carros eletrificados em menor escala? Uma escala mais humana, menos agressiva? Os modelos estão aí e a gente pode optar. Me parece que a escala humana é melhor: reduzir o tamanho, aproximar pessoas, criar ambientes menos massificados onde ficam todos iguais”, opina.

*Colaborou Carmen Vasconcelos