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Forró: o coração da Bahia bate no compasso do arrasta-pé

 

Ipac iniciou processo para reconhecer as Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia

 

 

Texto: Juliana Rodrigues/Portal SalvadorFM
Foto: Vagner Souza/Portal Salvador FM

 

 

Pode ser baião, xote, xaxado ou coco. Pode chegar ligeiro, feito sanfona puxada no fole, ou manso, convidando dois corpos para um passo miudinho. Na Bahia, o forró não cabe em uma palavra, e talvez seja justamente por isso que caiba tão bem no coração do povo. Entre festas, feiras, terreiros, praças e salões, o ritmo atravessa gerações, costura territórios e transforma música em memória. Agora, essa história pode ganhar um novo capítulo: o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) iniciou o processo para reconhecer as Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural Imaterial do estado.

 

 

Transformar sentimento em lei, porém, exige mais que paixão: exige critérios. Segundo o diretor do IPAC, Marcelo Ferreira Lemos, o reconhecimento segue as etapas do Registro Especial de Bens Culturais de Natureza Imaterial. E, embora o processo possa ser demorado, a Bahia reúne todos os requisitos.

 

 

Ritmo que transforma

 

 

Mais do que uma batida para arrastar o pé, o forró também sabe abrir caminhos. Foi em Riachão do Jacuípe, no interior baiano, que um menino se encantou com os versos que contavam as histórias e manifestações do Nordeste. Primeiro vieram as palavras, na literatura de cordel; depois, a música chamou para a dança. O menino cresceu, virou cantor e compositor e passou a atender pelo nome de Del Feliz. Quase três décadas de carreira depois, o artista, conhecido como embaixador do forró, já levou a cultura nordestina para mais de 53 países.

 

 

Para Del, transformar o forró em patrimônio cultural é mais do que colocar um carimbo oficial em uma tradição que já pulsa nas ruas. É fazer justiça a uma manifestação que há muito tempo encontrou na Bahia uma de suas casas.

 

 

Forró universitário

 

 

Na Bahia, cada região dá seu próprio tempero ao forró, sem deixar as raízes de lado. Em Salvador, o ritmo ganhou um jeito mais urbano e romântico, pelas mãos de uma banda formada por jovens , entre eles, um vocalista que, anos depois, transformaria o amor pela música em parte do próprio nome.

 

 

Léo Estakazero descobriu cedo que a música seria sua grande certeza. Pé na estrada com a Colher de Pau, encontrou no “forró com reggae” a mistura que ajudaria a dar um novo passo ao gênero na Bahia. Depois, com a Estakazero, embalou romances, brincadeiras e memórias de uma geração ao som do forró universitário. E quem nunca se arriscou nos passinhos da “Sapatilha 37”? Entre o amor e a brincadeira, Léo ajudou a colocar o forró para dançar também no ritmo da juventude baiana.

 

Essa relação também passa pela trajetória do próprio artista. “Fui pioneiro nesse ritmo aqui na capital, com uma linguagem jovem, universitária, trazendo um lado urbano, romântico”, afirma Léo, ao lembrar de sua contribuição para a construção de uma nova cena do forró em Salvador.

 

 

E, se há uma característica que define o forró baiano, é justamente a diversidade. Na Bahia, o gênero ganhou sotaques, misturas e diferentes formas de expressão.

 

 

É nesse caldeirão de influências que Léo Estakazero enxerga a força do gênero: um forró que preserva suas raízes, mas não se limita ao passado; que carrega a identidade nordestina, mas também conversa com a cidade, com os jovens e com as novas gerações.

 

 

Patrimônio Cultural da Bahia

 

 

No fim das contas, patrimônio é aquilo que o tempo não consegue levar. E o forró baiano parece ter aprendido a driblar o relógio: muda o passo, troca o cenário, atravessa fronteiras, mas continua reconhecível quando a sanfona começa a chorar e alguém chama para dançar. Se o processo chegar ao reconhecimento definitivo e à inscrição no livro de registro do patrimônio imaterial da Bahia, será a oficialização de algo que o povo já sabe há muito tempo: o forró não é apenas música. É encontro, identidade, memória, e um jeito bonito de a Bahia continuar dançando a própria história.

 

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